Monday, December 13, 2004

A Lanterna Mágica e O Olho Mágico




O Cinema e a Fotografia são dois amantes de longa data. Amam-se mutuamente, entregam-se de corpo e alma ao fotograma, um para vermos a sequencia e a história, outro para observarmos a imagem parada, estática que ri e não ri, quase quadro mas, que muitos de nós fotógrafos desejamos que seja nada mais que o nosso próprio olhar, o nosso próprio "tique" de pegarmos na cãmara fotográfica. O fotógrafo também se deve colocar à frente da objectiva e repensar a sua tomada de vista como aquele que por um mero acaso se vê ao espelho.
Quando era miudo, vendia-se no Bazar dos Três Vintens (no Porto) por uns escassos quinze escudos, um saquinho com uma dezena de fotogramas avulsos de película de filmes 35 mm (possivelmente aqueles pedaços que eram cortados e desaproveitados na montagem) e um visor feito em chapa para observá-los. Tenho a certeza absoluta que a minha paixão pela fotografia nasceu dessas fantásticas imagens, quase "mágicas" para mim que, nessa altura, ainda não tinha tocado numa câmara fotográfica! Sou um coleccionador de imensas coisas mas, na minha tulha tenho muita pena que lá não exista um exemplar desse brinquedo óptico. Vou a imensas feiras de antiguidades de brinquedos e ainda não consegui encontrar o tal saquinho e o visionador ou, até mesmo, só o tais pedacinhos de filme. Se consultarmos o livro de fotografia - the misfits - de Arthur Miller, como ainda ontem o fiz para preparar uma aula para o dia de hoje, estão lá esses tais fotogramas de várias cenas de muitos filmes com a Marilyn Monroe.
Não vivo de nostalgias mas tenho algumas nos bolsos do meu blusão que me acompanham quanto mais não seja, para que, quando estou a fotografar possa pensar que um dia eu gostaria de ter feito "aquilo"!
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"Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso, ela nos espia do aparador"
Drummond de Andrade

As minhas máquinas velhinhas como uma Brownie Hawkeye, na estante da minha sala, também continuam a espiar-me. São olhos que fotografam aquilo que eu vejo ou que, neste momento, vêem aquilo que eu fotografo.